O que é o altruísmo, afinal?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
O altruísmo pode ser considerado um sentimento?

A primeira vista, alguns me respondem que sim. Mas há como incluí-lo no mesmo saco do amor; ódio; medo e outros tantos produtos do sistema límbico?

Venho pensando sobre isso há um certo tempo, e já começo a achar que o altruísmo está mais relacionado com forças éticas e comportamentais, do que com produtos meramente inatos. Pois:

Conseguir colocar-se a margem do foco de qualquer que seja a situação, privilegiando alguém ou alguns, soa meio conflitante com o objetivo de auto-proteção e promoção do ser-humano.

Ser altruísta é conseguir, por vezes, se livrar dos sentimentos que tentam influenciar a sua decisão, optando por fazer o que é correto ao momento, muitas vezes obrigando-nos a abrir mão de algumas coisas que poderiam nos trazer n benefícios.

Mais: fazer coisas que privilegiam os outros em detrimento a você, pois assim você julga correto.

E em determinadas situações, você se coloca em conflito consigo mesmo, pois não consegue entender o por quê de ter feito aquilo. Chega a conclusão de que pode ter sido medo, ou até mesmo falta de atitude.

E então você não se entende mais, e se pergunta: isso pode ser um sentimento superior, mesmo agindo de forma totalmente diferente dos outros sentimentos?
Pois os dessa classe nos cegam e deixam-nos 100% decididos sobre qual o próximo passo, sem brecha para repensar.

Já, agir de forma altruísta também nos apresenta a certeza, quando do momento a ser "utilizado". Mas depois, você não sabe o que o levou a agir dessa forma, que todos acham admirável, mas poucos repetem.


Por que ser uma pessoa que privilegia os outros é realmente admirado pelos demais.
Mas às vezes não consegue nem ser admirado por você mesmo.



FALA AÍ: O Capão do Troço

sábado, 10 de novembro de 2012

Ali, onde hoje é a Praça Cícero, havia um lago, os são-luizenses mais velhos hão de se lembrar.
Esse lago desapareceu numa noite de inverno, anoiteceu e não amanheceu, literalmente.
Após muita investigação, por parte das autoridades públicas da época, descobriu-se a causa do sumiço repentino.

À tardinha, havia pousado sobre o lago um bando de marreco, para passar a noite, antes de prosseguir em sua rota migratória, e aconteceu que, de madrugada, o lago congelou.
Quando os primeiros raios de sol começaram a despontar no horizonte, os marrecos começaram a bater as asas, no intuito de prosseguirem a viagem, e como suas patinhas estavam presas no gelo, acabaram, ao decolarem, levando junto o lago, que havia se transformado num cubo de gelo gigante e agora sobrevoava o pampa gaúcho.

No lugar do lago ficou somente uma cratera, onde começaram a crescer algumas plantas e logo se formou um matinho. Então, as pessoas que iam passear no centro da cidade, sentindo-se agoniadas, com necessidade de se aliviar, passaram a usá-lo como banheiro. Por isso o lugar ficou conhecido como Capão do Troço.

Nessa época, a rádio Farroupilha, de Porto Alegre, tinha a seguinte promoção: um radialista batia na porta de uma casa e se o morador, antes de abri-la, gritasse o nome da rádio, ganhava um determinado prêmio.
Um são-luizense, embriagado, numa madrugada de inverno, saiu do Bar do Mário e, transitando pela Senador Pinheiro, capotou o seu fusca, que ficou de rodas para cima no meio do Capão do Troço. O motorista dormiu ali mesmo e, logo que amanheceu, um passante deu umas batidinhas no vidro embaçado do veículo e o acidentado não teve dúvidas, gritou a plenos pulmões: FARROUPILHA!
Esse matinho prestou-se, também, para encrontos sexuais furtivos, principalmente para um rapaz alegre e solícito, muito dado, que, com os seus préstimos, providenciava a introdução da rapaziada ao mundo dos prazeres carnais. Muitos são-luizenses tiveram a sua iniciação sexual ali, no Capão do Troço.

Reza a lenda que dois sujeitos foram surpreendidos completamente pelados no Capão do Troço e, perguntados sobre o que estavam fazendo, respoderam:
- Estamos aqui, meio que cagando, meio que mijando...
Um casal chegou a construir uma casinha de madeira no Capão do Troço. O homem, que gostava de futebol, improvisou um arco de taquara e botava a mulher, de vestido mesmo, a atacar pênalti. Mas a esposa vivia reclamando que a moradia tinha muito rato e que o marido nada fazia para terminar com a praga. Numa noite de inverno, o homem chegou bêbado em casa e a mulher, indignada, começou a gritar que ele não servia nem para matar os ratos. O marido não aguentou, botou fogo na casa e corria em volta gritando:
- Se cagaram rataiada!

Nos escombros desse incêndio, aboletou-se, um dia, uma andarilha, uma mulher que ninguém sabia ao certo de onde vinha e nem para onde ia. Dúvidas também havia quanto à sua sanidade mental, o certo é que era ninfomaníaca. Um grupo de jovens resolveu adotá-la e cada integrante furtava, da própria casa, gêneros alimentícios para alimentá-la, latas de sardinha, pernas de salame, etc. Em troca, ela sustentava a lascívia da rapaziada, que ia se revezando na labuta, mas teve vezes em que a coisa foi grupal. Quando o inverno passou, já gordinha, ela partiu. Ninguém nunca mais teve notícias dela.
Diante desses fatos, o prefeito da época resolveu botar ordem na bagaça e transformar o local numa praça, a atual e simpática Praça Cícero Cavalheiro.

Há, ainda, relatos de que, quando os marrecos sobrevoavam Porto Alegre, visando chegar à Lagoa dos Patos, o lago começou a descongelar e os peixes foram caindo pelas ruas da capital.
Sobre essa chuva de peixes tem até um poema do Mário Quintana, que na ocasião foi atingido na cabeça por um pacu.
Amigos do poeta contam que ele não se fez de rogado e preparou o pacu assado, batizando o prato com o seguinte nome: Hipoglós.
Para finalizar essa estória, segue o poema em que o Mário Quintana faz referência ao dia em que foi atingido na cabeça por um pacu, durante uma chuva de peixes:

Canção de nuvem, vento e peixe – Mário Quintana

Medo da nuvem
Medo Medo
Medo da nuvem que vai crescendo
Que vai se abrindo
Que não se sabe
O que vai saindo
Será um peixe?
Medo da nuvem Nuvem Nuvem
Medo do vento
Medo Medo
Medo do vento que vai ventando
Que vai falando
Que não se sabe
O que vai dizendo
Cuidado com o peixe!
Medo do vento Vento Vento
Medo do gesto
Mudo
Medo da fala
Surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe…
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem que tudo é vento
No meio um peixe
Nuvem e vento Vento Vento!
Peixe Peixe
Ai, minha cabeça!
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Texto de hoje vem da genialidade do Edson Luiz Vargas de Oliveira.


Mande o seu também: gunthersott@hotmail.com 

O que é isso, companheiro?

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Abrindo um novo capítulo no blog, o espaço FALA AÍ.

É destinado a amigos e leitores que queiram postar algum texto de sua alcunha mas não tem algum meio para isso.
Começamos com um do amigo Yuri Matos.
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Fico perplexo, quase atônito, com essas exasperadas intrigas entre Polícia Civil e Ministério Público. As instituições que deveriam trabalhar em conjunto protegendo os interesses da sociedade, ficam, ao invés disso, trocando farpas para mostrar quem está, ou não, com a razão.

Um dos vários episódios desses conflitos foi a propalada notícia da Delegada de Polícia que se recusou a lavrar flagrante porque questionava a participação da Brigada Militar na ação e, também, porque desconhecia maiores detalhes acerca da investigação conduzida pelo Ministério Público. Em decorrência disso, o Promotor de Justiça que conduzia a investigação - também agindo de modo um tanto inconveniente - determinou abertura de inquérito civil para apurar eventual prática de improbidade administrativa por parte referida delegada.

Pergunto-lhes: qual a grande ofensa em a Brigada Militar executar determinadas tarefas de polícia judiciária? Exceto o descontentamento da Polícia Civil, nenhum, a meu ver, se existir recursos e disponibilidade para isso. A frequente parceria entre Ministério Público e Brigada Militar decorre da necessidade de atuação mais prática e efetiva no combate a criminalidade, mediante pujantes ações de repressão, isso, no entanto, causa certo amargo à Polícia Civil, que não gosta de perder as “glórias”, ainda que demasiadamente singelas.

A Lei nº 9.099/95 autoriza a atuação da Brigada Militar nas infrações de menor potencial ofensivo, então, qual a grande ofensa jurídica em se dar efetividade à repressão criminal? Além disso, será mesmo que a simples participação da Brigada Militar em averiguações ou no cumprimento de mandados de busca e apreensão, em aleatórias e delimitadas oportunidades, prejudica consideravelmente a tarefa de policiamento ostensivo? Por outro lado, será que a colaboração da Brigada Militar não auxilia, inclusive, o trabalho da própria Polícia Civil, que evita deslocar agentes (muitas vezes afincados em outras tarefas) para o cumprimento de corriqueiras ordens judiciais? Se a grande problemática disso tudo está na ausência de previsão constitucional, a solução é simples e a devida reforma legislativa deveria ser efetivada, pois o escopo máximo é proteger e garantir os interesses da sociedade.

Além disso, aproveitando-se de toda a polêmica, a Polícia Civil voltou a criticar as ações de investigação do Ministério Público, dizendo que este não se interessa por acanhados delitos ou de pouca repercussão social. Na verdade, o MP-RS tem metas institucionais (GEMP 2022) que restringem e balizam as possibilidades de investigação interna, especialmente em razão de modestos recursos materiais e de pessoal. De qualquer forma, por mera coerência, o que surte mais efeito protetivo para a sociedade? Que o MP investigue e descubra o autor da subtração de um furto simples (praticado contra patrimônio privado de uma única pessoa) ou, então, que investigue e desmantele quadrilha organizada, que causava altíssimo prejuízo ao erário público ou que traficava em larga escala? Nem precisa resposta.

Para acirrar ainda mais a questão, no episódio da delegada, a Polícia Civil, alegando possível demasia na ação do “adversário” (pelo contexto fático é o que me parece), brada a necessidade de aprovação da PEC 37 - mais conhecida como PEC da impunidade -, dizendo que a sociedade – protegida por seus valorosos direitos fundamentais - não pode ficar submissa aos mandos e desmandos do intangível Ministério Público. Ora, isso um ultraje à própria ordem jurídica!
Imaginem todo o poder de investigação criminal pertencer exclusivamente às polícias judiciárias (civil e federal). Imaginaram? Para mim, é quase inimaginável. E a quem isso interessa? Aos “ladrões de galinha” (a quem o MP não costuma fiscalizar in locu) certamente que não! Por óbvio, o interesse em extirpar o poder investigatório do MP é puro e exclusivo daqueles a quem a Polícia Civil não tem força para reprimir e investigar, a quem, chamamos, ingenuamente, de Vossas Excelências (sei que não preciso nominar quem são, porque a maioria conhece – se bem que, se realmente conhecessem, agiriam de outra forma nas eleições), sobre os quais a Polícia Civil não tem a mínima força para reprimir ou investigar. Quer dizer, força até ela tem, mas, quando começa investigar, após rápida “mexida de pauzinhos” da cúpula corrompida, seus agentes são silenciados ou transferidos para o quinto dos infernos! E esse é o grande problema da submissão das polícias ao Executivo.

Aqui mesmo em São Luiz Gonzaga, quem leu as reportagens sobre a Operação Guarani, que desbaratou enorme esquema de corrupção no processo licitatório de concessão da água, sabe que a intervenção do Ministério Público - para investigação especializada (com apoio do núcleo de inteligência institucional) – iniciou mediante pedido de um Delegado de Polícia, que sabia, indubitavelmente, que a Polícia Civil local não tinha condições de investigar o esquema criminoso (que, supostamente, envolveria prejuízo milionário ao erário público), pela absoluta ausência de estrutura e recursos.

Caso seja aprovado esse execrado projeto de emenda constitucional, veremos, gradativamente, o avanço do caos. E quando falo em caos, não estou falando na reiterada atuação de assaltantes de ônibus (como está acontecendo em Rio Grande), nem da intensa onda de furtos praticados por drogaditos, mas sim da criminalidade dos “altos escalões”, aquela constituída pelos “excelentíssimos” senhores corruptos, que, então, por não mais temerem a atuação do Ministério Púbico, aproveitarão para montar novos e mais bem elaborados esquemas de corrupção, de desvio de dinheiro público, mensalões, mensalinhos, e tantos outros que a sociedade já conhece. Enquanto isso, promotores e procuradores estarão de braços cruzados em seus gabinetes, no ócio de sua autonomia funcional, esperando a chegada de possíveis inquéritos policiais elaborados pela vangloriada instituição que deterá exclusivamente o poder de investigar. Os agentes desta – os delegados (federais e estaduais)-, por sua vez, quando iniciarem investigações envolvendo integrantes desse “alto escalão”, ficarão entre cruzes e espadas, sob ameaça de remoção e outras punições discretas, que, certamente, resultarão em forçosa omissão.

Impossível olvidar ainda da corrupção dentro das próprias polícias. Não há, até onde se sabe, órgão ou instituição em que todos os seus integrantes sejam absolutamente corretos, idôneos, probos e cumpridores da lei (isso nos três poderes e no Ministério Público, infelizmente). No entanto, quando a corrupção está afincada dentro dos órgãos investigantes, como é o caso das policiais judiciárias, a questão toma conotação muito mais grave. Se o Ministério Público perder o poder de investigar, quem investigará as polícias judiciárias? Elas mesmas?
Será que é isso que a sociedade necessita? De um Ministério Público inerte e de uma Polícia oprimida e corrupta? Certamente que não. 
O atual cenário de persecução criminal está longe do ideal. Mas só de pensar na extirpação do poder de investigação da instituição titular da ação penal (a quem a investigação é dirigida), se antevê um retrocesso inimaginável e de efeitos catastróficos para a democracia.
Infelizmente, se a PEC 37 for aprovada, esqueçam, completamente, qualquer tipo de ideia para combate à corrupção, pois a ilegalidade, a imoralidade e a improbidade – mais do que nunca - tomarão conta do Brasil.

Utilizei o nome do livro de Fernando Gabeira como título para expressar tamanha perplexidade diante das reiteradas atuações dissonantes da Polícia Civil. Afinal de contas, para que serve a polícia judiciária se não para servir como braço direito do Ministério Público? Enquanto órgãos de persecução, Ministério Público e Polícia Civil devem trabalhar unidos para defender os interesses da sociedade por eles representada, deixando de lado qualquer disputa de escopo egoístico.

Por YURI MATOS. 
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Caso tenha interesse em participar, envie seu texto para gunthersott@hotmail.com.


Vamos tomar um mate, dia desses?

quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Arthur não tinha Facebook.

Ele não era muito ligado em tecnologia, apesar de ser um jovem adulto de 34 anos.

Não até aquele dia.

Morava com seu filho em um pacato bairro de São Luiz. A ex-mulher havia ido embora depois da separação, e o menino de 12 anos resolveu ficar na cidade com o Pai, por causa dos amigos.


Quando guri, Arthur jogava taco na 13 de Maio e tocava as campainhas da cidade. Tomava banho de chuva e sempre pulava o muro do Rui Barbosa para jogar bola nos fins de semana.

Dizia isso todo o dia para Guilherme.

- Tu não sabe se divertir, filho. Não deveria ter te dado esse Notebook de Natal.

E ouvia:
- Ah, pai. Não viaja. O "Feice" é muito massa. E além do mais eu uso pra falar com a mãe, tu sabe.

O guri voltava da aula e entrava no tal de "Feice". Só saia dali pra tomar banho. Jantava na frente do computador e estudava pelo Google. Todo o dia. O dia todo.

Arthur se incomodava com aquilo mas não falava nada, pois sabia que era a forma mais fácil do filho se comunicar com a mãe.

Mas um dia Guilherme lhe chamou: 
- Pai, vem aqui.
- O que foi, filho?
- Tu conhece essa mulher? Perguntou Guilherme, entrando no perfil de uma morena.

Arthur reconheceu na hora. Era Fernanda. Sua paixão platônica de adolescência.

Ficou encabulado, mas disse: - Rrr. Sim, filho. Ela foi minha colega ali no Rui. Por quê?

- Por que ela me adicionou no Facebook perguntando se eu era teu filho.

Arthur coçou a cabeça e ouviu: - Senta aqui, vou fazer um perfil pra ti. Todas as pessoas da tua idade tem, só tu que é cabeça dura. Assim tu vai poder reencontrar os teus colegas e parar de me incomodar. Tu vai ver que é massa.
Muito massa.

Ele sentou, ainda desnorteado com a imagem de Fernanda. Ela estava ainda mais linda do que lembrava.
Seu filho foi lhe perguntando algumas coisas, e em menos de dois minutos ele já estava lá. No Facebook.

- É simples, pai. Deixei a senha salva, é só tu por o teu nome aqui e entrar.

O tempo foi passando e Guilherme foi lhe ensinando como fazer. Aos poucos ele começou a gostar daquilo, e sempre que o filho não estava em casa, Arthur passava horas conectado, conversando com os velhos amigos.

Até que um dia ele foi surpreendido por uma pergunta: - Pai, por que mulher menstruada não pode tomar mate?

- Hãm!? Como assim, filho? De onde tu tirou isso?

-É pai. É que as vezes eu entro no teu Feice pra dar uma olhada, e ontem eu li uma conversa tua com aquela Fernanda...

O pai corou.

 - E eu vi que ela disse que estava de férias em São Luiz. E daí tu convidou ela pra tomar uns mates, mas ela disse que não podia por que estava menstruada.

- Por que mulher menstruada não pode tomar mate, pai?

Arthur pensou, enviesou a sobrancelha, e então disse:

- Eu sei lá, filho. Mulher é estranha mesmo. Elas também não podem nem bater maionese...


Pingos do dia: A Tia do Funk

segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Cara, sabe quando tu paga pra ouvir as coisas que tu já sabe?

Tipo, ir ao nutricionista e ouvir tudo o que tu não pode fazer, balançando a cabeça em sinal positivo, sabendo que tu sabia? Então, o que eu vou falar hoje é algo desse tipo.

Eu tô com medo de parecer extremamente ~facebookiano~ e dar aquelas morais de cuecas e tal, mas eu acho que já faço isso sem notar, há tempos.

O fato é: Saúde.

Quem me conhece sabe que eu fiz uma cirurgia em Setembro, de redução de estomago apendicite.
E vos digo: aquilo é a demonstração de quão insignificante a gente é. Eu não conseguia fazer nada sozinho, até pra urinar tu precisava que alguém te alcançasse o penico.
Levantar era um parto. Quase desmaia de dor, durante os 5 primeiros dias.

Mas o pior de tudo. E com certeza o que eu mais senti falta de poder fazer: gargalhar.
Claro que o hospital não é um ambiente muito engraçado, mas as vezes coisas corriqueiras te fazem rir.

Na minha internação eu quase arrebentei os pontos no terceiro dia, olhando propaganda eleitoral.

Aparece uma velha com o codinome " Tia do Funk", concorrendo a uma vaga na câmara de POA. Foi instantâneo imaginar aquela senhora de quase 60 anos dançando um funk violento, com uma bandana na cabeça.

E eu sabia que não podia rir. Então tentei segurar, mas era pior, quando não me continha vinha o riso reprimido, e a dor dos pontos repuxando.

É uma situação muito estranha, por que tu sabe que se tu fizer aquilo vai se machucar, mas tu não consegue controlar.
Tipo ataque de riso no meio da aula.

É triste, é idiota, é inexplicável.

E o pior é que é mais engraçado. 

A Síndrome dos vinte e tantos

quarta-feira, 19 de setembro de 2012
A chamam de ‘crise do quarto de vida’.
Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos.
Se dá conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado(a) etc..
E cada vez desfruta mais dessa cervejinha que serve como desculpa para conversar um pouco.
As multidões já não são ‘tão divertidas’. ..
E as vezes até lhe incomodam.

E você estranha o bem-bom da escola, dos grupos, de socializar com as mesmas pessoas de forma constante.
Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo.
Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas que conheceu e que o pessoal com quem perdeu contato são os amigos mais importantes para você.
Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor.
Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto pôde lhe fazer tanto mal.
Ou, talvez, a noite você se lembre e se pergunte por que não pode conhecer alguém o suficiente interessante para querer conhecê-lo melhor.
Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar.
Talvez você também, realmente, ame alguém, mas, simplesmente, não tem certeza se está preparado (a) para se comprometer pelo resto da vida.
Os rolês e encontros de uma noite começam a parecer baratos e ficar bêbado(a) e agir como um(a) idiota começa a parecer, realmente, estúpido.
Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotado(a) e significa muito dinheiro para seu pequeno salário.
Olha para o seu trabalho e, talvez, nao esteja nem perto do que pensava que estaria fazendo. Ou, talvez, esteja procurando algum trabalho e pensa que tem que começar de baixo e isso lhe dá um pouco de medo.
Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que não quer.
Suas opiniões se tornam mais fortes.
Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal, porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas a sua lista do que é aceitável e do que não é.
Às vezes, você se sente genial e invencível, outras… Apenas com medo e confuso (a).
De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando.
Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro… E com construir uma vida para você.
E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela.
O que, talvez, você não se dê conta, é que todos que estamos lendo esse textos nos identificamos com ele. Todos nós que temos ‘vinte e tantos’ e gostaríamos de voltar aos 15-16 algumas vezes.
Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça… Mas TODOS dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de aproveitá-la por causa dos nossos medos…
Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro.
Parece que foi ontem que tínhamos 16…
Então, amanha teremos 30?!?! Assim tão rápido?!?!
FAÇAMOS VALER NOSSO TEMPO… QUE ELE NÃO PASSE!
___________


O texto é tão bom que (não é meu) tive que postar aqui.

É DESSE BLOG AQUI: http://copicola.com/2009/05/24/para-a-galera-de-20-e-poucos-anos/

Rosana

segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Ela era assim.

E se perguntava, todo santo dia, que culpa tinha por não agradar a todos. 

Antes de dormir, Rosana fugia. Fechava os olhos, mas as suas pálpebras não conseguiam diminuir a intensidade da luz que importunava. Se abertos, a luz que incomodava era a que se derramava pelo vão da porta;
se fechados, vinha doutro lugar.

No silencio do seu quarto vazio, uma mulher de 23 quase podia ouvir o som de um pensamento. No estado de semi-sono, ela conseguia desconstruir toda a brevidade de uma lembrança em cores, música, e odores.

Com os olhos cada vez mais cerrados, o turbilhão de reações elétricas provenientes de seu cérebro iluminavam, quase que realmente, os seus olhos. Via explodirem cores e luzes à questão de milímetros de si. Tão rápido quanto a luz, que mais parecia um retrato daqueles furacões com nome de gente que aparecem lá pro norte, surgiam rostos. E cada boca balbuciava uma palavra, enquanto o resto da face era substituída por outra, e outra, e outra. 

Às vezes as frases expulsadas do seu sub-consciente tinham sentido, que logo eram transformados em uma imagem, como na vez em que viu uma pintura à tinta óleo de várias arestas arredondadas subindo uma terra úmida, enquanto dois centímetros de chão escondiam as pontas perigosas de alguma coisa.

Ela já chegou a postular que o que  via era o processo normal de transformação de memórias de curto para de longo prazo.

Mas ela sempre está cansada demais para decidir acordar e anotar os pensamentos que surgem desse breve estado.  Quem dirá para tentar pintar quadros das imagens que vê nascerem em frente aos olhos.
E acreditem: ela tem vontade. 

Mas ela também tem vontade de tanta coisa.

De viajar. De conseguir um emprego que lhe dê segurança, ao mesmo tempo em que lhe proporcione os medos inerentes de responsabilidade e crescimento profissional.
Rosana tem vontade de ser atriz na frente de qualquer espelho. Emprestar a sua face a alguém que não tenha tantos problemas como ela, mas que também não ache as soluções para esses poucos problemas rápido demais.

Ela quer sentir o frio na barriga, mas não gostaria de arcar com o ônus do fracasso.

E antes das luzes cessarem, esse pensamento faz pintar outra imagem em seus olhos: a Monalisa.

As bocas incessantes disparam que talvez não seja boato.

Talvez seja realmente Leonardo, com uma tela e um espelho em sua frente.

Tudo isso, mas nada mais.

O João Clichê - Um texto em homenagem ao jornal A Notícia.

sábado, 28 de julho de 2012

João era o cara clichê. Ganhou esse apelido na época da escola, por que sempre largava aquelas frasezinhas prontas nos momentos mais inoportunos. Tinham gurias que confundiam o apelido e chamavam-no de João Chiclé, em vez de João Clichê. O pessoal ria muito disso, pois o mal-entendido criou em cima dele um estigma de cara grudento, mala e paparicador. O João, coitado, nunca pegou nada por causa disso.

Pois as gurias, quando dizem que sentem falta de um aconchego, lembrancinhas, surpresas e vidinha de casal, mentem. Mentem descaradamente. Viciadas em adrenalina. Isso que são essas mulheres. Umas viciadas.

Enquanto deixamos nossas doses semanais ao encargo da Fórmula-1, luta livre e a peladinha do fim de semana, elas precisam de algo mais envolvente. Algo mais a ver com as mulheres. Mais carnal. Mais complexo: um relacionamento difícil. 

Para elas, um relacionamento complicado é mais excitante do que ver o Anderson Silva dar um chute frontal no rosto do Vitor Belfort.

Mas, mil vezes mais adrenalizante que ver o Rubinho Barrichello ultrapassar o Schumacher e quase bater no muro a 320 Km/h, é ligar para o namorado no meio da noite e ele não atender. “Meu Deus. Onde ele está? Só pode ter saido, esse cretino. Deve estar me traindo com aquela vizinha atirada do 203. Ah, bastardo. Vou te encher de SMS”. E começa a disparar aqueles verdadeiros torpedos.

Ela lá, acordada a madrugada toda só mirabolando, e ele em casa, dormindo. No outro dia, o cara acorda atônito e vê aquelas 23 mensagens no celular, que chegaram ao meio da madrugada trazendo a maior coletânea de xingamentos já reunida, e se assusta. Precisa ligar de volta e explicar que estava muito cansado, pois trabalhou demais, e por isso não atendeu.

Do outro lado da linha, uma mulher com olhos marejados de tanto choro, e olheiras dignas de um urso Panda, sorri, como sorriem os que ficam sem graça, e suspira: “Ai. Ele me ama.”

Esse mal-entendido marcou a adolescência do meu amigo João. Coitado.

Hoje, ninguém mais lembra dessa história, que me voltou depois do convite do jornal A NOTICIA para escrever uma crônica sobre seus 78 anos. A única coisa que eu pensava era: não seja igual ao João Clichê. Não seja igual ao João Clichê. Não seja igual ao João Clichê. Mas entendi que só o que me restava era estender os braços e parabenizar a direção, funcionários e assinantes de A NOTICIA por mais este aniversário. Afinal, quando se festeja o aniversário de alguém com quase oito décadas de vida, não se pode fugir muito do mais famoso clichê: Parabéns! E muitos e muitos anos de vida!

Quem manda em mim?

quinta-feira, 19 de julho de 2012
Vou contar-lhes do meu ciclo vicioso.

Venho já há algum tempo pensando nele, e tentando avaliá-lo de forma imparcial. Mas é impossível.

Primeiro por que em Psicologia/Ciências Sociais, o olhar cientifico de "observar, e apenas observar" se torna dificílimo. No meu caso, impossível. Sempre fica alguma coisa tendenciando a analise. Um engodo. Uma promessa.
Ou uma esperança.

Há nesse ciclo, dois pólos: A minha auto(?)-estima; e minha auto-critica.
Todos possuem ambos.

Porém, normalmente, a auto-estima maior, e uma auto-critica infinitamente inferior. À minha.
Ou não?

Eu já não sei identificar até que ponto é sadio eu colocar em avaliações tão rigorosas todas as coisas que faço.

Desde o meu caráter, até uma singela conversa no MSN.

Parece animador - à quem não tem - uma auto-critica tão abrangente. Projeta a ideia de que você está sempre em franca evolução e aperfeiçoamento. Mas há o paralelo.

A pergunta que desnorteia, é: quando saber que está realmente bom?
Como, e quando, perceber que o elogio foi realmente sincero, e não apenas um alento fajuto de alguém que você sabe que torce por ti.

E é justamente aqui que entra o outro pólo: Auto-estima.

Me pergunto até que ponto um dia horrível pode mudar isso.
Por em cheque qualquer coisa que você faz, por não mais saber se ela não foi tão bem feita como poderia ser, ou se ela foi feita da maneira que você melhor poderia fazê-la.

E que a cobrança em excesso parte da parte de você que sempre quer ver o seu melhor, ou da parte que não deixa você gratificar-se.

E sempre que acontece isso, eu penso: quem está mandando agora? A baixa-estima, ou a auto-critica?

Dá pra perceber o nó?

Parece bobo dizer que até esse ponto do post eu já pensei em excluí-lo.
Três vezes.

É uma fórmula matemática: A auto-critica é inversamente proporcional a auto-estima.

E o engraçado é que se elas se nivelassem por qualquer um dos extremos, seria ótimo.

Sendo ambas gigantes;
Ou comumente ínfimas.


Estão prontas as pipocas?

quarta-feira, 4 de julho de 2012
É 1:50 da manhã.

Sento em frente ao computador e tento lembrar a quanto tempo eu não venho aqui.
E isso me faz ver outra coisa: quantas noites como essa se passaram sem eu notar.

Quantas vezes planejei fazer dezenas de coisas em uma semana, e na segunda seguinte percebi que não fiz nada daquilo?

Então eu penso nas noites como essa, que se passam despercebidas.
Há vezes em que acho que não damos valor devido a um dia.

Só que já não sei se sou eu quem não sabe fazer isso, ou realmente é assim que é.

Dois minutos e quarenta e cinco segundos parecem muito tempo quando estamos parados em frente a um microondas, ouvindo as pipocas estourarem enquanto o timer vai correndo.

Entretanto, quantas vezes eu preciso ouvir minha musica preferida de três minutos pra me sentir satisfeito?

Parece meio bobo, mas talvez perceber que muitas noites se passaram sem serem notadas seja um indicio de que minha vida ande muito bem, obrigado
.
E, de certo modo, isso me surpreende, pois ela não está do jeito que eu realmente esperava. Ainda.

Saber disso é animador, por que, convenhamos,esperar as pipocas estourarem enche o saco.

Literalmente.


Então...

quinta-feira, 24 de maio de 2012
Devo algumas explicações à quem lê essa bagaça aqui.

Mas vou ser sucinto: andava sem cabeça pro blog.

Me bateu algumas preocupações que eu sabia que hora ou outra da vida bateria. 
Nesse intervalo lidei com algumas derrotas pessoais, e não tenho vergonha de admitir que, definitivamente, eu não sei lidar muito bem com isso.

Não é arrogância, nem pretensiosismo exacerbado: eu não sou acostumado à isso.

Sempre consegui aquilo à que me propus, mas 2012 tem me reservado algumas surpresas negativas.

Se serve de consolo, eu sabia que isso teria que acontecer algum dia, e que isso é necessário para meu crescimento pessoal, intelectual e profissional.

Então, nesse entreveiro de coisas, resolvi mergulhar novamente em uma paixão que andava abandonada: livros.

Andei, por um ano, preocupado em ocupar o outro lado da coisa: contar as histórias.

E agora digo: foi revigorante.

Algo apenas comparável com a incorporação de um cogumelo verde pelo Mário Bros.

Não criem muitas expectativas. Mas acho que agora vai...

Obrigado por ainda acessarem o Madruguei.

Abraços.

O inconveniente do Mi Maior

quinta-feira, 5 de abril de 2012
Não vou bater na tecla da insensibilidade feminina.

Algumas pessoas podem começar a desconfiar que eu tenho problemas com figuras maternais, e afins.

NÃO. Eu não tenho.

Na verdade já começo a achar que eu que sou um baita de um azarado.

Já escrevi sobre a história do dia em que tentei fazer como nos filmes, e tudo deu errado.
Mas tudo bem, essa vez eu ri e tudo mais. Só que, infelizmente, já desci mais nesse poço.

Muitos degraus abaixo de um presentinho idiota, eu fui.

Amigos, cabisbaixo por tanta vergonha, admito: fiz uma MÚSICA.

Uma baladinha simples, em Mi maior.

Escrevi meia duzia de versos tortos e mal rimados. Bolei uma melodia extremamente cretina e previsível, e compus o que, dias depois, seria um divisor de águas na forma como eu vejo as mulheres.

Achei demais o que eu havia feito. Tinha certeza que, depois de algumas tentativas falhas, dessa vez eu teria sucesso com ela.

Por que, cara. Eu fiz uma música.
Uma MÚSICA.

Dessas de tocar no rádio e tudo.
De embalar casais apaixonados no balanço do quintal.
De fazer as pessoas fecharem os olhos e se imaginarem na história.

Uma música pra ela contar para todas as suas amigas e deixá-las com aqueles olhos de asterisco, e inundadas de ciúmes.

Só que, como nos últimos jogos do Grêmio, nada aconteceu como o previsto.

Em um sábado de acampamento, com um violão na mão e ela em outra, fui para um canto sossegado.

- Tenho uma surpresa para ti.
Ela sorriu, e sentou em um toco de árvore ali pelos arredores. Eu já havia premeditado um banco, me acomodei, e fiz ressoar aquele mi maior.

Abri meu peito - literal e metaforicamente.

Mas o que veio depois seria um bom motivo pra não faze-lo.
Nunca mais...




Pingo do dia

quarta-feira, 4 de abril de 2012
Um exemplo da bizarrice do mundo é o que aconteceu comigo hoje.

Comecei a fazer as aulas para a minha Carteira Nacional de Habilitação ( CNH ).
Dentre os tópicos da aula, corria para lá e para cá uma discussão sobre direção defensiva, e mecânica auto-motiva. Eu, até então, não tinha vergonha nenhuma de dizer que não sabia nada sobre carros, nem transito, nem nada.

Só que quando eu deixei isso explícito,a maioria me olhou com desdém.
Não observei todos, mas deve ter havido um cochicho na orelha da gurizada lá de trás: - Haha! Aquele cara não sabe nem dirigir.

Então, eu pergunto: Que porra é essa?

Por que eu tenho que entrar na Auto-Escola sabendo dirigir, se lá eu estou pagando justamente para eles me ensinarem a fazer isso?

A cada exemplo desses, eu percebo que o verdadeiro profeta não é Nostradamus, é Renato Russo:  

" Esse é o nosso mundo. O que é demais nunca é o bastante, e a primeira vez é sempre a última chance." 

O que eu não quero que saibam de mim

quinta-feira, 29 de março de 2012
Eu não gosto que vocês saibam como eu me sinto: Essa é a resposta para todos os que me perguntam por que venho, gradativamente, parando de escrever.

Ano passado eu tinha muita coisa pra contar. Casos que vi, que ouvi, e que inventei.
Fatos que não mudariam mais a minha vida. Que já estavam no arquivo, e  não tinham por que não serem compartilhados.

Mas agora está cada vez mais difícil. O limite está chegando. A memória acabou, e eu só consigo pensar em coisas recentes.

Historias que, as vezes, envolvem pessoas que me leem aqui.

E o pior, às vezes tenho vontade de escrever coisas que me "desmentiriam" frente ao idealismo que fazem de mim.

E esse nunca foi o meu objetivo.

No fundo ninguém que ser conhecido de verdade. A imagem do espelho as vezes é melhor. A voz no telefone sempre soa mais confiante.

O  passado sempre é o mais maleável dos tempos.
Aquele em que rir de si ou chorar já não faz diferença. Você é apenas um expectador da própria vida.

Mas o agora, não. Eu não rio de mim quando estou triste por bobagem.
Depois eu vou.

É muito difícil mudar quando ainda há tempo.

Pior ainda é contar quando está acontecendo.

A mobília do meu quarto

terça-feira, 20 de março de 2012
Por quem a gente muda?
Muda de gosto, opinião, estilo, aparência?

Mudar sempre parece uma ideia interessante, ainda mais quando se está de saco cheio da forma como tudo está indo.

Quando penso nisso, sempre me vem a cabeça os móveis do meu quarto.

Acho interessante esse negócio dos móveis!

Por exemplo:  eu não consigo ficar muito tempo com o quarto do mesmo jeito. Meu quarto é pequeno, acho que só consegui, em 17 anos nesse apartamento, fazer três diferentes tipos de "arranjo" da mobília. Isso significa que eu mudo e mudo as coisas de lugar, mas teoricamente elas não mudam nunca.

Tem o guarda-roupas, que é a principal peça do quarto. Tudo gira em torno dele. Tive que pensar muito antes de escolher o lugar certo. Cuidei o local das tomadas, da janela, e da porta. Isso é muito importante, pois um guarda-roupas não se pode arrastar, como uma cama, ou uma cadeira, então eu sempre deixo-o no mesmo lugar, intocável. Na parede do menor lado do retângulo.

Do outro lado tem a janela, e embaixo dela, a mesa de estudos.

Na parede leste, a cama. Na outra, um sofá.

Eu acho que demoro cerca de 7 meses para enjoar do local das coisas, e aí mudo para o jeito que estava 14 meses atrás. 
Engraçado é que quando eu arrumo, penso que a "nova" distribuição é a melhor possível.

Depois enjoo, e segue o ciclo.

Sempre que eu estou fazendo as mudanças, penso se as pessoas também podem ser assim: mudar, e mudar e mudar, e, em certa altura, perceber que voltaram a ser os mesmos que um dia tentaram não ser. 

E mais: acreditar que aquele é, enfim, o melhor de si. 
Então você percebe que perdeu tanto tempo tentando recomeçar pela motivação e lugares errados, até se encontrar de novo.

Pensando assim, soa impossível modificar as coisas. Mas não é.

Basta começar por onde sempre dá mais trabalho.

No meu caso, o guarda-roupas.

Em outros, você.




Sem tempo

segunda-feira, 12 de março de 2012
Galera, só tô postando para pedir desculpa à quem sempre acessa o blog e não encontra nada novo, já faz um tempo.

Ando, milagrosamente, bem ocupado, e correndo atrás do barco.
Planejei mudar a vida nesse ano, e to tentando fazer isso.

Coisas boas vem acontecendo, e quando tudo se ajeitar, eu volto a escrever.


Obrigado pelos acessos, e até breve.

Meu manual de erros

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Será mal da juventude, ou da época em que vivemos?

A ânsia dos jovens atuais por informação e globalidade faz com que nos tornemos presunçosos a ponto de pensar que entendemos coisas da vida.

O fato de ter o mundo, e a história das pessoas à distância de um clic cria a falsa impressão de que se tem todas as receitas de sucesso e os avisos de fracasso, compilados, ali, prontos para serem assimilados e seguidos pelo mundo.

O jovem acha que modificou o ensinamento:  "inteligente é aquele que aprende com seus erros"; para  o lindamente e utópico: "inteligente é aquele que aprende com o erro dos outros".

Bobagem. Sem reação não se aprende nada.

Quando se tem 16 anos, você acha que já está pronto, e que, quando chegar aos 22, será uma pessoa totalmente diferente. 
Talvez essa seja a primeira decepção do jovem adulto: Notar que o tempo corre rápido, e que as coisas não vem de uma maneira uniforme para todos. 

E isso pode ser discutido como reflexos de sua criação, de seu meio, da psicologia, mas, especialmente, de experiências - boas e más.

Eu conheço pessoas que são incrivelmente maduras e determinadas, aos 20 anos.
Entretanto, também sei de outras que são infantis e fúteis, aos 35.


Há aqueles que reclamam da vida sofrida que levam quando brigam com amigos, ou perdem algo material.
Dinheiro se recupera. Amigos perdoam-se.
E, não me entendam mal, não seria hipócrita a ponto de afirmar que isso tudo é superlativo. Claro que não é. 
O que eu quero dizer é que essas coisas não o fortalecem. Não o fazem crescer como pessoa e não lhe ensinam em qual compasso a música toca.

Já a maneira pela qual se encara a morte pode ser uma ferramenta de percepção de maturidade.
Não há quem não saiba que vai morrer. Mas aceitar isso não é fácil, e suportar é aparentemente impossível.

Contudo, se aprende com a morte. Saber que a cada dia é menos um dia  nos força a sair do conforto.
Começa com um leve incomodo, que ganha corpo e vira atitude.

Atitude para arriscar. Para não se importar com opiniões alheias.
Atitude para buscar o seu ideal, e não o padrão.

Se o seu ideal é ser milionário, você trilhará um caminho para isso. Talvez não chegue lá, mas ao menos saberá que viveu seu tempo em linearidade. Não vagou na vida.

Ter um objetivo traçado nos faz sentirmos fortes. E nos sentirmos assim fortalece a auto-estima.

Quem não confia em si não arrisca.
Quem não arrisca não perde.
E quem perde, mesmo assim, ganha.


Achar que se pode aprender com o erro dos outros é algo parecido com  a sensação de um expectador de futebol: 

Você pode até não sofrer gols. Mas também não os marca.

Uma comédia nada romântica

terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Eu já tentei fazer como nas comédias românticas.
E, desde já, deixo o aviso à vocês: Nem sempre dá certo.

Tudo começa quando a mulher olha um filme, e lá, o galã, além de ser bonito, charmoso, e rico, se apaixona pela mocinha. O início do filme transcorre sem sobressaltos, é amor puro, e felicidade plena.

Mas, lá pelos 37' do segundo tempo, uma bomba cai. Ela descobre que ele o enganou no começo, ou eles brigam por bobagem. Mas - e aí está o que impressiona as mulheres nesse tipo de filme - faltando três minutos para os créditos subirem, o galã faz algo incrível, como uma chuva de rosas de um helicóptero, um outdoor na freeway, uma declaração de amor em meio a final do Superbowl, um pedido de casamento ao vivo na televisão. Sei lá.

E, dai, pronto. As mulheres normais passam a acreditar que todos os homens normais também devem fazer isso.
Pois bem, isso foi o que eu pensei naquele momento.

Existia um clima ali, não dava pra negar. Nos conhecíamos há muito tempo, mas nossa relação havia se estreitado à pouco. Nos falávamos muito, mas nos víamos pouco.

E eu ainda não tinha conseguido entender bem o que era, e, naquela madrugada, percebi que havia chegado a chance.
Exatamente 01:27, meu telefone toca: ELISA.

- Oi!
- Oi, tudo bem? Diz ela.

-Tudo bem, e aí?
- Sim.

Pela voz eu percebi que era mentira. Alguma coisa a incomodava.

Insisti, perguntei o que era, e ela não disse.
Só me falou que estava triste, solitária, que não acontecia nada muito estimulante em sua vida.

Vi a oportunidade, e disse.

-Elisa, já te ligo, espere acordada.

Sai pela casa, acendi todas as luzes. Pensei em algo legal para fazer, mas, em São Luiz Gonzaga, madrugada de uma Quinta-feira, eu não encontraria nada na rua. O meu presente teria de ser achado em casa.
Encontrei uma pequena caixinha de anel, vazia: Peguei.
Achei um baralho velho no fundo de uma gaveta: Peguei.
Papel e caneta. Tudo planejado.

Enquanto eu separava todas as cartas de copas, e recortava os corações, me sentia muito esperto: - Ela vai entender. O que importa é o gesto.
Abri a caixinha, coloquei dezenas de pequenos corações vermelhos ali, escrevi qualquer coisa, e sorri.

Fiquei feliz por ter tido aquela ideia. Por ser arrojado. Por tentar fazer algo por ela.

Liguei: - Tô indo aí. Me explica bem onde é.

- É aqui para baixo do Rui. Meia quadra, uma casa rosa.
-Tá bem, tô indo. Respondi, pegando o presente.

- Mas eu já tô indo dormir. E desligou.

Encarei aquilo como um sinal de medo, mas não liguei. 

Fui de apé, era perto. Era romântico. Sentia como se houvesse câmeras me filmando, em meio a uma comédia romântica.
E a musica que tocava de fundo era: Coldplay - Fix you.

Cheguei na frente do Rui, e então liguei. Queria saber bem certo onde era.
Primeira tentativa: nada.
Andei mais um pouco, até a frente do CNEC, liguei.
Nada.
Andei mais meia quadra, liguei.
Mais uma, mais duas. Ligando.
Voltei.
Comecei a ficar nervoso.

Andava para lá e para cá naquela rua, às duas da manhã.
Ligando, olhando. Ligando, olhando.
Espichava o pescoço por sobre o muro de todas as casas rosas, tentando ver uma luz, talvez uma silhueta na janela. Uma porta aberta.

E, então, a música de fundo muda. Sai o Coldplay e entra um AC/DC.
Não entendo, então olho para trás. A 30 metros de mim, o guardinha da rua vem, com o passo apurado.
Viro, e saio andando, de mansinho. Passo a primeira arvore, e apuro.
Apuro, apuro. Quando me dou conta, estou correndo.

Olho para trás e vejo um homem com cerca de 1, 80 m em disparada, com um cacetete na mão e um apito na boca, soprando que nem louco.

- Pii. Piii. Para aí. Para aí.

A música sobe, e eu corro. Corro, corro.

Atiro a caixa cheia de corações de copas e um bilhete carinhoso em um terreno baldio, e isso o distrai.
Ele para para ver o que é, talvez pensando que fosse drogas, ou produto de um roubo.
Essa foi a minha sorte, senão ele ia me pegar.

E como que eu ia explicar para ele que estava, às duas da manhã, procurando a casa de uma mulher para dar-lhe uma bobagem como aquela? 

Cheguei em casa suado, e ri.
Ri muito.

Ainda bem que era escuro, e o guarda nunca irá me reconhecer.
Mas tenho certeza que ele conta essa história para todo mundo:

- O dia que eu dei um corridão num otário conquistador.

Ele fala orgulhoso. Eu, envergonhado. 

Pelo menos eu tentei ser como nos filmes.
Só que a minha comédia não foi nada romântica.



A cabeça de uma mulher

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
"Nem a lua afasta o medo de passar a noite só! Volta para mim? Marcos." 


Muriel colocou o cartão no envelope e devolveu-o ao seu lugar, entre as duas tulipas mais bonitas daquele imenso buquê. Se esforçou para sorrir ao entregador, agradeceu, e fechou a porta. 


Escorou-se ali mesmo, e, segurando aquelas flores brancas envoltas em um papel azul enrugado, voou. 


Muriel, morena do cabelo encaracolado; mais linda que a Terra, vista da lua. 
Muriel, do sorriso cintilante, das covas rasas, da pele lisa e do olhar desconfiado. 


É essa a mulher que segura as flores na altura do esterno, sem saber o que fazer. 


Ela gira os olhos por toda a casa, sem se mover. 



Milhares de fotos, espalhadas por incontáveis porta-retratos, agiam como filmes em sua cabeça. Lembranças de cada centímetro de sofá pipocavam em seus olhos, como janelas pop-up de sites chatos. 



O perfume das flores subia e a fazia esmorecer. 



Então, veio a seriedade. Não era tão simples. 



- Como Marcos pensou que uma frase bonita e uma duzia de tulipas perfumadas me fariam esquecer de tudo o que ele fez? 



- Ele pode escrever um livro, que mesmo assim não vai conseguir apagar as palavras ditas de cabeça quente. Aquelas que vem sem peso. Que burlam o filtro existente entre o córtex cerebral e a garganta, e que não chegam nem perto de serem freadas pela consciência e consequência. 



-Essas machucam. E seria bom se esse filtro nem existisse. Assim poderíamos conhecer realmente quem nos rodeia, sem influência de falsidades e relevâncias. Ah, eu já teria dado aquele tapa nele há muito tempo. 



Ele não vai me dobrar assim. Eu vou é pôr isso no lixo. 



Ela ensaia o primeiro passo e então vê Schofis, seu Chow Chow de 5 meses, fitando-a sem entender nada. 



"- Esse aqui é para você parar de reclamar da solidão. Não é tão bonito como eu, mas ao menos não precisa trabalhar o dia todo." Foi o que ele disse no dia em que chegou com aquela caixa de papelão. 


Ela lembra bem, pois foi a gargalhada mais linda que deu nos últimos anos. 




Muriel arrasta o pé para trás, e fica. 



- Mas isso tudo não pode ter sido tão insignificante. 
- Eu não consigo acreditar que todas as coisas que ele me disse eram premeditadas, que os gestos eram calculados e que os momentos eram irrelevantes. 



- Ninguém consegue fingir aquele calor. 
-Ele me ama. Eu sei. Foi só um erro. 
- Talvez ele esteja mesmo certo. 



- " Você é muito indecisa, Muriel. Eu me esforço para te surpreender e te propor coisas legais, mas você nunca me dá a resposta esperada. Diz que não sabe, que precisa pensar. Arranja uma desculpa, mas depois se arrepende. Você coloca muitas coisas em risco assim." 



As palavras de Marcos soaram em sua cabeça. 



- Fui uma boba, quem sabe eu seja mesmo assim, e realmente coloque coisas de valor em risco por isso. 



Ela ensaia mais um passo, espalhando o olhar pela casa, tentando encontrar um vaso de plantas vazio, mas pára. 
Ela não tem certeza. 



Então baixa os olhos para Schofis e diz: 



- Já que você ouviu tudo, me diga: Água ou lixo? Indaga Muriel, apontando o dedo para as tulipas. 



Se pudesse falar, Schofis a chamaria de louca. 
Mas ele não pode. 




Ele só pode tapar os olhos com as patas.
Sorte dele.

















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