Uma comédia nada romântica

terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Eu já tentei fazer como nas comédias românticas.
E, desde já, deixo o aviso à vocês: Nem sempre dá certo.

Tudo começa quando a mulher olha um filme, e lá, o galã, além de ser bonito, charmoso, e rico, se apaixona pela mocinha. O início do filme transcorre sem sobressaltos, é amor puro, e felicidade plena.

Mas, lá pelos 37' do segundo tempo, uma bomba cai. Ela descobre que ele o enganou no começo, ou eles brigam por bobagem. Mas - e aí está o que impressiona as mulheres nesse tipo de filme - faltando três minutos para os créditos subirem, o galã faz algo incrível, como uma chuva de rosas de um helicóptero, um outdoor na freeway, uma declaração de amor em meio a final do Superbowl, um pedido de casamento ao vivo na televisão. Sei lá.

E, dai, pronto. As mulheres normais passam a acreditar que todos os homens normais também devem fazer isso.
Pois bem, isso foi o que eu pensei naquele momento.

Existia um clima ali, não dava pra negar. Nos conhecíamos há muito tempo, mas nossa relação havia se estreitado à pouco. Nos falávamos muito, mas nos víamos pouco.

E eu ainda não tinha conseguido entender bem o que era, e, naquela madrugada, percebi que havia chegado a chance.
Exatamente 01:27, meu telefone toca: ELISA.

- Oi!
- Oi, tudo bem? Diz ela.

-Tudo bem, e aí?
- Sim.

Pela voz eu percebi que era mentira. Alguma coisa a incomodava.

Insisti, perguntei o que era, e ela não disse.
Só me falou que estava triste, solitária, que não acontecia nada muito estimulante em sua vida.

Vi a oportunidade, e disse.

-Elisa, já te ligo, espere acordada.

Sai pela casa, acendi todas as luzes. Pensei em algo legal para fazer, mas, em São Luiz Gonzaga, madrugada de uma Quinta-feira, eu não encontraria nada na rua. O meu presente teria de ser achado em casa.
Encontrei uma pequena caixinha de anel, vazia: Peguei.
Achei um baralho velho no fundo de uma gaveta: Peguei.
Papel e caneta. Tudo planejado.

Enquanto eu separava todas as cartas de copas, e recortava os corações, me sentia muito esperto: - Ela vai entender. O que importa é o gesto.
Abri a caixinha, coloquei dezenas de pequenos corações vermelhos ali, escrevi qualquer coisa, e sorri.

Fiquei feliz por ter tido aquela ideia. Por ser arrojado. Por tentar fazer algo por ela.

Liguei: - Tô indo aí. Me explica bem onde é.

- É aqui para baixo do Rui. Meia quadra, uma casa rosa.
-Tá bem, tô indo. Respondi, pegando o presente.

- Mas eu já tô indo dormir. E desligou.

Encarei aquilo como um sinal de medo, mas não liguei. 

Fui de apé, era perto. Era romântico. Sentia como se houvesse câmeras me filmando, em meio a uma comédia romântica.
E a musica que tocava de fundo era: Coldplay - Fix you.

Cheguei na frente do Rui, e então liguei. Queria saber bem certo onde era.
Primeira tentativa: nada.
Andei mais um pouco, até a frente do CNEC, liguei.
Nada.
Andei mais meia quadra, liguei.
Mais uma, mais duas. Ligando.
Voltei.
Comecei a ficar nervoso.

Andava para lá e para cá naquela rua, às duas da manhã.
Ligando, olhando. Ligando, olhando.
Espichava o pescoço por sobre o muro de todas as casas rosas, tentando ver uma luz, talvez uma silhueta na janela. Uma porta aberta.

E, então, a música de fundo muda. Sai o Coldplay e entra um AC/DC.
Não entendo, então olho para trás. A 30 metros de mim, o guardinha da rua vem, com o passo apurado.
Viro, e saio andando, de mansinho. Passo a primeira arvore, e apuro.
Apuro, apuro. Quando me dou conta, estou correndo.

Olho para trás e vejo um homem com cerca de 1, 80 m em disparada, com um cacetete na mão e um apito na boca, soprando que nem louco.

- Pii. Piii. Para aí. Para aí.

A música sobe, e eu corro. Corro, corro.

Atiro a caixa cheia de corações de copas e um bilhete carinhoso em um terreno baldio, e isso o distrai.
Ele para para ver o que é, talvez pensando que fosse drogas, ou produto de um roubo.
Essa foi a minha sorte, senão ele ia me pegar.

E como que eu ia explicar para ele que estava, às duas da manhã, procurando a casa de uma mulher para dar-lhe uma bobagem como aquela? 

Cheguei em casa suado, e ri.
Ri muito.

Ainda bem que era escuro, e o guarda nunca irá me reconhecer.
Mas tenho certeza que ele conta essa história para todo mundo:

- O dia que eu dei um corridão num otário conquistador.

Ele fala orgulhoso. Eu, envergonhado. 

Pelo menos eu tentei ser como nos filmes.
Só que a minha comédia não foi nada romântica.



A cabeça de uma mulher

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
"Nem a lua afasta o medo de passar a noite só! Volta para mim? Marcos." 


Muriel colocou o cartão no envelope e devolveu-o ao seu lugar, entre as duas tulipas mais bonitas daquele imenso buquê. Se esforçou para sorrir ao entregador, agradeceu, e fechou a porta. 


Escorou-se ali mesmo, e, segurando aquelas flores brancas envoltas em um papel azul enrugado, voou. 


Muriel, morena do cabelo encaracolado; mais linda que a Terra, vista da lua. 
Muriel, do sorriso cintilante, das covas rasas, da pele lisa e do olhar desconfiado. 


É essa a mulher que segura as flores na altura do esterno, sem saber o que fazer. 


Ela gira os olhos por toda a casa, sem se mover. 



Milhares de fotos, espalhadas por incontáveis porta-retratos, agiam como filmes em sua cabeça. Lembranças de cada centímetro de sofá pipocavam em seus olhos, como janelas pop-up de sites chatos. 



O perfume das flores subia e a fazia esmorecer. 



Então, veio a seriedade. Não era tão simples. 



- Como Marcos pensou que uma frase bonita e uma duzia de tulipas perfumadas me fariam esquecer de tudo o que ele fez? 



- Ele pode escrever um livro, que mesmo assim não vai conseguir apagar as palavras ditas de cabeça quente. Aquelas que vem sem peso. Que burlam o filtro existente entre o córtex cerebral e a garganta, e que não chegam nem perto de serem freadas pela consciência e consequência. 



-Essas machucam. E seria bom se esse filtro nem existisse. Assim poderíamos conhecer realmente quem nos rodeia, sem influência de falsidades e relevâncias. Ah, eu já teria dado aquele tapa nele há muito tempo. 



Ele não vai me dobrar assim. Eu vou é pôr isso no lixo. 



Ela ensaia o primeiro passo e então vê Schofis, seu Chow Chow de 5 meses, fitando-a sem entender nada. 



"- Esse aqui é para você parar de reclamar da solidão. Não é tão bonito como eu, mas ao menos não precisa trabalhar o dia todo." Foi o que ele disse no dia em que chegou com aquela caixa de papelão. 


Ela lembra bem, pois foi a gargalhada mais linda que deu nos últimos anos. 




Muriel arrasta o pé para trás, e fica. 



- Mas isso tudo não pode ter sido tão insignificante. 
- Eu não consigo acreditar que todas as coisas que ele me disse eram premeditadas, que os gestos eram calculados e que os momentos eram irrelevantes. 



- Ninguém consegue fingir aquele calor. 
-Ele me ama. Eu sei. Foi só um erro. 
- Talvez ele esteja mesmo certo. 



- " Você é muito indecisa, Muriel. Eu me esforço para te surpreender e te propor coisas legais, mas você nunca me dá a resposta esperada. Diz que não sabe, que precisa pensar. Arranja uma desculpa, mas depois se arrepende. Você coloca muitas coisas em risco assim." 



As palavras de Marcos soaram em sua cabeça. 



- Fui uma boba, quem sabe eu seja mesmo assim, e realmente coloque coisas de valor em risco por isso. 



Ela ensaia mais um passo, espalhando o olhar pela casa, tentando encontrar um vaso de plantas vazio, mas pára. 
Ela não tem certeza. 



Então baixa os olhos para Schofis e diz: 



- Já que você ouviu tudo, me diga: Água ou lixo? Indaga Muriel, apontando o dedo para as tulipas. 



Se pudesse falar, Schofis a chamaria de louca. 
Mas ele não pode. 




Ele só pode tapar os olhos com as patas.
Sorte dele.

















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